Quase toda investigação começa com um fato mal contado: "um perfil aplicou um golpe", "uma empresa recebeu um contrato estranho", "uma pessoa sumiu". Antes de abrir qualquer ferramenta, vale transformar o fato em perguntas. Existe um roteiro antigo para isso, usado em investigação criminal e também em jornalismo e em auditoria: sete perguntas, conhecidas como heptagrama (a lista clássica de Quintiliano).
As sete perguntas
- O quê? Qual é o fato? O que, exatamente, aconteceu ou está sendo afirmado?
- Quem? Quem fez, quem sofreu, quem viu, quem se beneficiou?
- Onde? Em que lugar, físico ou digital (site, rede social, conta, servidor)?
- Quando? Em que data e hora, e em que ordem os fatos ocorreram?
- Como? De que modo foi feito? Qual a sequência de atos?
- Por quê? Qual a motivação provável? É a pergunta mais perigosa: vale deixar por último e tratar como hipótese.
- Com que meios? Que instrumentos, ferramentas, dinheiro ou apoio foram usados?
Quem conhece o 5W2H do mundo da gestão reconhece o parentesco. A diferença é que, aqui, cada pergunta vira uma lista de o que eu já sei, o que eu preciso saber e onde posso achar em fonte aberta.
Como usar na prática
- Monte uma tabela com as sete perguntas em linhas e três colunas: o que já se sabe, o que falta e onde procurar.
- Separe fato de suposição em cada resposta e anote a fonte. O que veio de uma única fonte entra como "a confirmar".
- Deixe lacunas à vista. Pergunta sem resposta é pista do que buscar a seguir.
- Revise a tabela a cada rodada. O plano muda conforme você descobre.
Exemplo fictício
Fato: uma loja online sumiu depois de receber pagamentos.
- O quê: pedidos pagos que não foram entregues.
- Quem: a loja, o titular do domínio, as vítimas que reclamaram.
- Onde: site, perfis em redes sociais, plataforma de pagamento.
- Quando: primeira reclamação, data de criação do domínio, última publicação.
- Como: anúncio com preço baixo, pagamento por transferência instantânea.
- Por quê: hipótese de golpe; confirmar ou descartar.
- Com que meios: domínio, contas de pagamento, números de telefone.
Cada linha aponta uma consulta: registro do domínio, histórico do site, reclamações públicas, perfis ligados ao mesmo telefone. Veja também os artigos sobre rastrear domínio, IP e e-mail e sobre relatórios.
Dois cuidados
- Não fique nas sete perguntas. Elas organizam o que se sabe, não substituem a verificação das fontes.
- Escopo e legalidade antes da coleta. Para cada resposta que exige dado pessoal, confirme se há finalidade legítima e base para isso.
Texto elaborado pela comunidade OSINT Rio a partir de tema apresentado no curso de pós-graduação em OSINT da WB Educação (professor Ricardo Magno), com autorização. O modelo clássico é descrito aqui em palavras próprias e deve ser conferido com o material do curso.
