← artigos

Sete perguntas para começar qualquer investigação

OSINT Rio · 26/10/2026

Quase toda investigação começa com um fato mal contado: "um perfil aplicou um golpe", "uma empresa recebeu um contrato estranho", "uma pessoa sumiu". Antes de abrir qualquer ferramenta, vale transformar o fato em perguntas. Existe um roteiro antigo para isso, usado em investigação criminal e também em jornalismo e em auditoria: sete perguntas, conhecidas como heptagrama (a lista clássica de Quintiliano).

As sete perguntas

  1. O quê? Qual é o fato? O que, exatamente, aconteceu ou está sendo afirmado?
  2. Quem? Quem fez, quem sofreu, quem viu, quem se beneficiou?
  3. Onde? Em que lugar, físico ou digital (site, rede social, conta, servidor)?
  4. Quando? Em que data e hora, e em que ordem os fatos ocorreram?
  5. Como? De que modo foi feito? Qual a sequência de atos?
  6. Por quê? Qual a motivação provável? É a pergunta mais perigosa: vale deixar por último e tratar como hipótese.
  7. Com que meios? Que instrumentos, ferramentas, dinheiro ou apoio foram usados?

Quem conhece o 5W2H do mundo da gestão reconhece o parentesco. A diferença é que, aqui, cada pergunta vira uma lista de o que eu já sei, o que eu preciso saber e onde posso achar em fonte aberta.

Como usar na prática

  • Monte uma tabela com as sete perguntas em linhas e três colunas: o que já se sabe, o que falta e onde procurar.
  • Separe fato de suposição em cada resposta e anote a fonte. O que veio de uma única fonte entra como "a confirmar".
  • Deixe lacunas à vista. Pergunta sem resposta é pista do que buscar a seguir.
  • Revise a tabela a cada rodada. O plano muda conforme você descobre.

Exemplo fictício

Fato: uma loja online sumiu depois de receber pagamentos.

  • O quê: pedidos pagos que não foram entregues.
  • Quem: a loja, o titular do domínio, as vítimas que reclamaram.
  • Onde: site, perfis em redes sociais, plataforma de pagamento.
  • Quando: primeira reclamação, data de criação do domínio, última publicação.
  • Como: anúncio com preço baixo, pagamento por transferência instantânea.
  • Por quê: hipótese de golpe; confirmar ou descartar.
  • Com que meios: domínio, contas de pagamento, números de telefone.

Cada linha aponta uma consulta: registro do domínio, histórico do site, reclamações públicas, perfis ligados ao mesmo telefone. Veja também os artigos sobre rastrear domínio, IP e e-mail e sobre relatórios.

Dois cuidados

  • Não fique nas sete perguntas. Elas organizam o que se sabe, não substituem a verificação das fontes.
  • Escopo e legalidade antes da coleta. Para cada resposta que exige dado pessoal, confirme se há finalidade legítima e base para isso.

Texto elaborado pela comunidade OSINT Rio a partir de tema apresentado no curso de pós-graduação em OSINT da WB Educação (professor Ricardo Magno), com autorização. O modelo clássico é descrito aqui em palavras próprias e deve ser conferido com o material do curso.